30/08/2016

Parem de nos matar

Publicamos aqui o manifesto da rede das mulheres negras da Bahia.
Casa Matria apoia essa campanha com a sua rede de parceiros austríacos, buscando parcerias e apoio,  fazendo "lobbying" politico no contexto europeo, divulgando o manifesto e os assuntos na imprensa de lingua alemã.

 

PAREM DE NOS MATAR!

MANIFESTO

No Estado da Bahia nós, mulheres negras:
1. Morremos pela ação do patriarcalismo nas mãos dos maridos, amigos, namorados, vizinhos;
2. Morremos pela violência obstétrica e no silêncio covarde sobre o aborto;
3. Morremos pelos mamógrafos que não funcionam o ano inteiro enquanto que verbas consideráveis são investidas em Campanhas para realizar o Outubro Rosa;
4. Morremos pelas omissões e segunda violência no atendimento nas Delegacias Especializadas no Atendimento a Mulher (DEAM’s);
5. Morremos pela indicação de juízes para as Varas de Violência Doméstica, mesmo sendo eles abertamente adversários da Lei Maria da Penha;
6. Morremos com a permissividade e tolerância das autoridades com programas de TV’s que criminalizam a população negra e pobre; 
7. Morremos pelo encarceramento feminino que não é pauta nas mesas governamentais; 
8. Morremos quando enterramos as/os nossas/os filhas/os, sobrinhas/os, netas/os, afilhadas/os assassinados pela política das drogas e pela polícia;
9. Morremos quando as Universidades pensam que não somos sujeitas de conhecimento, nos utilizando apenas para os experimentos científicos cujos resultados não nos beneficiam com políticas públicas;
10. Morremos quando nossos territórios quilombolas, pesqueiros e de terreiros são roubados com a conivência e descaso do estado e dos órgãos de defesa que ficam em silêncio, frente à barbárie nos campos e nos assentamentos; 
11. Morremos quando não sabemos do que morremos...
Continuamos em Marcha!
Racistas, machistas, não passarão!
Tudo tenso!
Somos herdeiras de Maria Felipa, Lélia Gonzalez e Luiza Bairros!

Uma campanha promovida pela Rede de Mulheres Negras da Bahia

A Rede de Mulheres Negras da Bahia, nos últimos três anos, tem articulado e mobilizado mulheres de todo o Estado para lutar contra o racismo, o sexismo e a violência. Em tempos de fortalecimento do conservadorismo e consequente retrocesso político, assumimos, mais uma vez, nossa tarefa histórica de reorganizar umas as outras contra todas as formas de opressão que se levanta contra nós e contra o povo negro.

Mulheres negras na base da pirâmide social
A base da pirâmide social ainda continua pertencendo, por excelência, às mulheres negras que sustentam este país sem usufruir das riquezas que são produzidas. Em verdade, na maior parte das vezes nos falta o básico para que possamos construir uma vida com dignidade. Tanto no setor público quanto no setor privado o racismo tácito e velado assegura que os melhores postos de trabalho sejam reservados aos herdeiros das famílias tradicionais brancas. Em qualquer que seja o governo predomina os interesses do compadrio e das elites econômicas. A indiferença e a naturalização de nosso adoecimento e morte persistem e isso na maior parte das vezes, não é manchete na grande mídia.
Saúde
Segundo o Ministério da Saúde, 60% da mortalidade materna ocorrem entre mulheres negras, contra 34% da mortalidade entre mães brancas. Entre as atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 56% das gestantes negras e 55% das pardas afirmaram que realizaram menos consultas pré-natais do que as brancas. A orientação sobre amamentação só chegou a 62% das negras atendidas, enquanto que 78% das brancas tiveram acesso a esse mesmo serviço.
A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) registrou, até o dia 28 de setembro de 2015, 540 óbitos por neoplasia maligna da mama em pacientes do sexo feminino. Constam nos registros da secretaria 1.490 internações por câncer de mama neste ano. As taxas de mortalidade continuam elevadas no Brasil, e o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que sejam diagnosticados mais 57 mil novos casos, sendo 10,5 mil no Nordeste e 2.560 na Bahia.
 Violência
As mulheres pretas e pardas são a maioria entre as vítimas de homicídio doloso – aquele em que há intenção de matar – (55,2%), tentativa de homicídio (51%), lesão corporal (52,1%), além de estupro e atentado violento ao pudor (54%). As brancas só são maioria nos crimes de ameaça (50,2%). É fato que, gênero e raça quando combinadas reforçam a situação de vulnerabilidade. Além disso, o Brasil ocupa a 5° posição dentre 83 países em assassinato de mulheres. Entre 2003 e 2013 o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8% enquanto os homicídios de mulheres negras aumentaram 54,2% no mesmo período.

Violência psicologica
Mesmo quando escapamos da negligência do SUS somos vitimadas por doenças psíquicas causadas pelo racismo e sexismo presentes em nossa sociedade, como ocorreu com Joselita de Souza, que morreu de tristeza na última quinta-feira, dia 07 de julho de 2016. Joselita era a mãe do menino Roberto de Souza Penha morto em 28 de novembro de 2015 no Rio de Janeiro, ao ter o carro em que estava fuzilado com 111 tiros pela Polícia Militar do estado, quando, juntamente com seus amigos, comemorava o seu primeiro salário.

Por todos estes motivos lançamos a campanha PAREM DE NOS MATAR nesta quarta-feira, dia 13 de julho, a partir da qual pretendemos denunciar e enfrentar as diversas situações de violência que as mulheres negras vivenciam no estado da Bahia.
A iniciativa é uma proposta em continuidade à Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver, que levou cerca de 50 mil mulheres negras de todo o país à Brasília, em novembro de 2015. É mais uma frente de luta contra o avanço do racismo e sexismo em nosso estado que, embora tenha índices alarmantes de casos de violência física, psicológica e simbólica de meninas e mulheres negras, estes muitas vezes sequer tem causado indignação.
                                                                     
Salvador,13 de julho de  2016
Assinam este Manifesto:
Rede de Mulheres Negras da Bahia


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